LEITURAS EM CONTRAPONTO

Este mês recebemos das Paulinas um livro teórico.

LEITURAS EM CONTRAPONTO  - Novos jeitos de ler, de Sueli de Souza Cagneti.

São 11 textos da autora que foram palestras e publicados em diversas revistas e jornais, agora reunidos em um só livro.
No final ainda há uma extensa (e maravilhosa) bibliografia, pra quem quiser conhecer melhor as obras citadas ou conhecer um pouco mais da literatura infantil, juvenil e teórica sobre o assunto.

Nos diversos textos, de vários assuntos, mas com pontos em comum, a autora nos fala  um pouco da história da literatura no Brasil, e da importância da literatura infantil:

"... descobri com a criançada e também com os mais crescidos, quando uma obra apenas tagarela, enquanto outra pouco fala e tanto diz; perceber quanto de uma mesma suposta verdade se pode pensar, em confronto com aquela que um autor apresenta pronta e acabada... sentir a delícia de deixar-se levar por uma linguagem trabalhada artisticamente, comparando-a com um texto que até pode ter o que dizer, mas não sabe dizê-lo; constatar que lendo se pode criar novas verdades, como também ratificar as "de sempre" ad aeternum, porque os textos escolhidos/lidos desembocam sempre no mesmo lugar." (CAGNETI, 2017, 9)

Sabemos que existem vários tipos de livros e de leituras, a autora chama atenção para que os mediadores de leitura saibam  auxiliar os leitores para terem uma competência leitora: ler percebendo as diferenças acima mencionadas. 
Fazendo do ato de leitura, um ato consciente, já que o mundo anda tão consumista e as coisas são lidas/compradas e descartadas quase que imediatamente, sem o tempo de serem absorvidas ou pensadas de uma forma mais intensa. 
A leitura é um ato que precisa de um tempo, de observar, comparar, resgatar contextos e vivências anteriores, de procurar nas entrelinhas e de reflexão com o eu antes da leitura e o sujeito depois da leitura (estamos em constante transformação!).

Nos diversos textos Sueli também nos fala da importância da reinvenção dos clássicos contos de fada e como trazer esses contos para a realidade que vivemos hoje, fazem com que eles não sejam esquecidos:

"Mudou nosso jeito de ler, Não mudou a condição humana." (CAGNETI, 2017, 19)

Já que os contos buscam explicar o Homem e seus comportamentos, essas questões básicas não mudaram, mas sim a forma que esse Homem entende-se, reage e encara as mudanças sociais, políticas, de cidadania e tecnológicas do mundo que se transforma também cada vez mais rapidamente. E assim ele descobre que não existem verdades absolutas. Uma coisa considerada normal numa determinada época, pode ser considerado algo inaceitável em oura e vice-versa. 
Sendo assim, as princesas que pacientemente e sem fazerem mais nada na vida, esperavam um príncipe para poderem ser felizes. Hoje as princesas têm amigas, vão a luta, brigam, salvam o príncipe e até decidem que não querem ser mais princesas ou não pretendem casar, já que isso não garante felicidade alguma. Os tempos mudam, as ideias de felicidade também.

Hoje o leitor deve apropriar-se do texto. Nada mais natural que o texto apropriar-se do contexto vivido pelo leitor:

"...descobrindo-se e descobrindo o mundo é, certamente uma forma de poder." (CAGNETI, 2017, 24)

Ser um leitor não quer dizer engolir passivamente as palavras escritas de um autor ou as imagens de um ilustrador (já que podemos ler figuras também), mas sim questionar, rejeitar, pesquisar, deglutir, repensar de forma crítica o que se recebe num livro. 

A autora também dá exemplo práticos, comparando vários livros infantis brasileiros, mostrando como cada autor e ilustrador imprimiu novos conceitos e contextos em histórias que as crianças amam desde sempre. Fala de Lobato e como ele (e seus personagens) mudaram nossa forma de ver o mundo, aqui no Brasil. 

Os textos são curtos e muito diretos. Perfeitos pra quem não pode perder tempo.

Novos tempos exigem novas competências leitoras. Cabe a nós, adultos, auxiliarmos as kids a adquirir essas competências, não dizendo o que é certo ou errado, mas mostrando e indicando livros de qualidade, para que eles possam ir aos poucos discernindo o jogo do trigo. 

Ah. Claro que o livro não é só isso, falei de alguns capítulos, mas tem muito mais! Recomendo muito a leitura. ;)

Fica a dica. Boa leitura!

Ah!
A autora  SUELI DE SOUZA CAGNETI é professora, pesquisadora e escritora sobre a estética da literatura infantojuvenil e a pedagogia da leitura. Titular na Universidade da Região de Joinville há 25 anos, é mestre em Letras pela UFSC, doutora em Letras e Literatura Portuguesa pela USP e fez pós-doutorado na Itália. É professora de Pensamento Contemporâneo no Mestrado de Patrimônio Cultural e Sociedade (Univille). Membro votante da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e do Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa das Universidades de Lisboa. 

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