O que vinha no vento {Bissaura e a saudade de Lu e Mateus}

 Eu já falei pra vocês que adoro dar livros de presente. Principalmente quando eu conheço e tenho um livro que é a "cara" da pessoa ou do que ela está passando.
Quando recebi o livro 

O QUE VINHA NO VENTO de Silvia Abolafio e ilustrado por Marcos Garuti. Editora Galpãozinho, ISBN: 9788599311226...

Imediatamente lembrei da amiga virtual Luciana, do blog EU, MÃE, REAPRENDENDO COM O AUTISMO, que estava sofrendo com a perda da 

Bissaura, uma Boxer, que cresceu com o filho dela, o Mateus. 
Então, mandei o livro pra ela!

Siponse: Um cheiro, um olhar, buzina de carro, chuva? Quem sabe muito bem o que vem no vento é um ser muito especial, que tudo sente, mesmo quando seus olhos já quase não enxergam, pois seu olfato aguçado nada perde. Acontece que o tempo, implacável tempo, um dia leva algo muito especial, deixando apenas a saudade que chega com o vento. 

E pedi que escrevesse pra gente, desabafando um pouco, falando da saudade, da perda e principalmente do amor compartilhado nos anos que a Bi, para os íntimos, viveu com a família.

Com vocês a Lu:

"Eu sou daquelas pessoas que sofre por antecipação, sabe. E quando o amor é grande, o sofrimento começa bem cedo. Desde que a Bissaura chegou a idade adulta, meio assim “véa véa véa” (fecha o olho e imagina uma pronúncia carregada com um bom sotaque de cearense, já que moro aqui), começou meu sofrimento, a contagem regressiva para a despedida, tentava – e por vezes consegui, viver intensamente cada momentinho que nos restava, era dela a minha vida. 

Quando descobrimos o câncer no intestino e a situação FIM passou a ser oficial, precisei trabalhar isso comigo, e também com meu filho Mateus, de 4 aninhos e autista. Afinal, aquela “monstrinha feroz e soltadora de pum”, era sua companheira inseparável. Foram dela os primeiros carinhos, abraços e beijos que ele se sentiu a vontade para dar... 

Os cuidados diários como “presta atenção pra não pisar na Bissaura”, “deixa ela dormir, filho, ela precisa descansar”, “ela já tá velhinha”, “não deixa ela roubar sua comida” (ahhhhhhh e como ela roubava), passaram a ser quase um mantra, repetido exaustivamente. 

Mas no fundo, eu olhava para ela, e simplesmente não conseguia imaginar como seria a nossa despedida. Mesmo doente, ela foi guerreira, ela continuou insana, brincalhona, ladra, brigona, minha branquela... 

Minha madrasta sempre tentava me “empurrar” ou como dizia meu marido “desovar um cachorro aqui em casa” – carinhosamente, por favor – ela dizia “quando a Bissaura morrer, você leva a Taty”, “quando a Bissaura morrer você leva a Princesa”, “quando a Bissaura morrer, você leva a Moinha”... Aquilo era tão improvável – não um novo amigo peludo conosco, e sim imaginar que ela ia mesmo partir – que entrava por um ouvido e saía pelo outro, e seguíamos nossas vidas. 

Nas a doença começou a mostrar que estava mais forte que nossa vévea. Era mais forte que seu corpo musculoso - que deu espaço a pelanquinhas com cheirinho de colônia da Fisher Price, aqueles pulos até o teto, ficaram cada vez mais tímidos... A doença só não foi mais forte que a fome dela... Ahhhhh aquele olho não podia ver comida, imaginar comida, sentir a presença de comida ou de qualquer coisa que ela achasse que era comida, que ficava esbugalhado, saltado, enorme, como dizem aqui “GRELADOS”. No último mês dela com a gente, perdi a conta das coisas que ela pegou achando que era comida, até a chave do carro...

 O mantra diário de “cuidado com a Bissaura” precisou tomar uma forma nova, precisei começar a explicar pro Mateus, que “Papai do Céu estava chegando, qualquer dia desses pra levar a Bissaura com ele”. Incrédula, arrasada, destruída, mas tentando esconder dele e principalmente dela, que o maldito dia estava chegando... Tá, tá, eu acredito que ela está em paz, que ela está bem, me agarro na esperança da máxima que “um dia vamos nos encontrar”, ou como tenho tatuado no meu braço “AOS CAMINHOS, EU ENTREGO O NOSSO ENCONTRO” (do meu escritor favorito, Caio Fernando Abreu), mas na prática, ahhhhhhhh, na prática dói pra c$#@&*** PIIIIII PIIIIIIII (censurado) 

Posso dizer que ela nos permitiu durante o tempo que esteve com a gente, muitas lições, não perdeu a vontade de viver por nenhum momento, foi linda até o fim. E como o fim não existe, ela ainda é linda. Amada. Tudo. Até uma segunda-feira em que Papai do Céu veio buscá-la... 

Fazer o quê, né? Faz parte, dizem... 

Agora, enquanto estou aqui, escrevendo nossa história, é inevitável chorar, um pouquinho de dor sim – não tem como negar, mas o ingrediente mais forte nessas lágrimas é GRATIDÃO. 

OBRIGADA, BISSAURA.

OBRIGADA, MENINA GISELE, PELO LIVRO LINDO. PELA DEDICATÓRIA CARINHOSA – PARA A NOSSA BISSAURA TAMBÉM. E PELA OPORTUNIDADE DE PODER FALAR UM POUQUINHO DESSE INFINITO AMOR QUE TENHO POR ELA. 

BEIJO CARINHOSO. 
LU ROVIGATTI"


Comentários

  1. Giiiii, obrigada. Estou, como dizem aqui, "que nem um cururu inchado", de orgulho, de ter um pouquinho da nossa história compartilhada aqui...
    <3
    AH! O link que você colocou, tá indo prá um Blog que não é o meu...
    O meu é esse aqui, faz tempo que não escrevo, inclusive, vou retomar essa parte importante da minha vida:

    http://falandosobreoautismo.blogspot.com.br/

    Beijo bem grandão.
    LU

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