Fome de mãe


Dizem que o sonho de 9 entre 10 mulheres (neste mundo cruel) é comer sem se preocupar com os quilos que vão ganhar. E que melhor momento para por essa filosofia em pratica do que a gravidez? Além da necessidade extra de calorias, ainda tem o incentivo da família "come mais filha, fiz especialmente pra você" ou "o primeiro pedaço de torta vai para o bebê". E como se a paparicação fosse pouca ainda temos ao nosso dispor o místico poder dos desejos fora de hora. É só esfregar a lâmpada de madrugada que surge um pobre marido para procurar sorvete de acerola com caldo de cana em algum supermercado 24 horas.
Mas o que acontece nas mesmas 9 entre 10 mulheres é que a fome da gravidez vem de mãos dadas com seus nada inocentes cúmplices, o enjoo e a azia, isso quando não trazem junto o refluxo e a hiperemese. Lá se vão sonhos decorados com nuvens de algodão doce e piscinas de bolinhas de brigadeiros. E a pobre grávida, ao invés de ganhar peso, perde. 
"Tenta chazinho de limão ou erva-doce", "chupa gengibre",  "mastiga cardamomo", " sal de frutas",  "não Magnésia é tiro e queda". E sempre tem aquele remédio, que te deixa dormindo em pé. Você até trabalha, o problema é lembrar exatamente o que fez durante o expediente.
No meu caso, para piorar, sempre fui obrigada a comer. Desde pequena lembro-me dos meus pais sentados na mesa (meia hora depois de todo mundo terminar o almoço) tentando me convencer a parar de construir castelos de purê e pelo menos dar uma colherada numa das torres. Sonho de adolescência, engordar sem precisar comer.
Assim que os sintomas apareceram corri para a nutricionista, além da dificuldade em ganhar os quilos obrigatórios, mais uma vez, tinha entrado na gestação abaixo do peso ideal.
Tentei todas as receitas citadas. Comia de duas em duas horas o que entrasse no estômago. Cortei uma série de alimentos e introduzi outros seguindo a risca todas as orientações. Com paciência e força de vontade consegui ganhar um quilo por mês. 
Não posso nem sentir o cheiro de chá de camomila, pior se for com erva doce e gengibre.
Fora da dieta da nutricionista só consegui comer a pizza do meu pai, massa caseira com molho de tomate feito em casa!
E só. É a única coisa que povoa meus sonhos gastronômicos; nenhum brigadeiro, nenhum chocolate (e sou chocólatra assumida), nenhum biscoito recheado, pudim, sorvete de sabor esquisito, nada!
Agora que o primeiro pedaço de torta é do bebe, nenhuma vontade!
Só quero verduras, frutas, ricota, iogurte, creminho de moranga.
Como assim ??? É a minha chance, não vai se repetir.
Nove entre dez mulheres adorariam comer sem se preocupar. Descobri que sobrei na equação.

FIM

Fim mesmo só se este post tivesse sido publicado no dia que foi escrito, mas passadas algumas semanas, veio o milagre dos hormônios. Os incômodos foram diminuindo até praticamente desaparecer. Este domingo comi o primeiro pedaço da torta, o segundo, o terceiro (a foto do post é de uma das tortas da Dona Carmen, minha mãe). No sábado, os docinhos do casamento e os bem-casados das lembrancinhas. Estou me sentindo realizada, aliás mais que isso, normal.  Já a nutricionista vai ter uma surpresa quando eu pisar na balança do consultório...


Comentários

  1. kkk... já tá ficando barrigudinha, e por sinal uma linda barrigudinha!!! Ca, você me fez lembrar do drama da hora do almoço... vc brincava de castelo e eu chorava porque não aguentava mais ficar na mesa...kkk

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