O que Alice esqueceu

A escritora Liane Moriarty tem um jeito bem envolvente de falar sobre alguns problemas da maternidade e do casamento. As histórias geralmente se concentram em um grupo de mulheres (irmãs ou amigas) e suas vidas de donas de casa, trabalhadoras (fora e dentro de casa) e giram em torno de casamento, filhos, cuidar de casa, escola, e assuntos afins. Você começa o livro e já não consegue parar de pensar na história, até chegar ao final... É o tipo de livro que fica com você, faz você refletir sobre sua vida... E é quando vem aquela sensação de quero mais e a trama toda fica reverberando dentro de você.


O QUE ALICE ESQUECEU de Liane Moriarty, editora Intrínseca.
Em seu novo livro, Moriarty conta a história de uma mulher em 2008, que vai fazer 40 anos, mas numa aula de step, cai e bate a cabeça. Quando acorda, ela acredita que está em 1998, que vai fazer 30 e está recém casada (apaixonadíssima) com Nick, grávida de 14 semanas, tímida, um pouco desastrada e dispersa e fora de moda...

Ela simplesmente esqueceu 10 anos da vida dela... Alice descobre é uma mamãe sarada, rica, prestes a completar 40 anos. E mais: ela tem três filhos, tem um namorado e está envolvida em um horrível processo de divórcio pela guarda das crianças, com o agora raivoso Nick. Alice se esforça para entender a maneira como ela se sente versus o modo como ela vive agora.  Dentro de sua cabeça ela houve uma voz sempre apressada e raivosa dizendo o que ela tem ou não que fazer (mais tarde descobre que é a voz da Alice "madura". Ela não consegue entender por que ela está distante de sua irmã Elisabeth (eram tão coladas), por que ela e Nick aparentemente se odeiam e como tudo isso virou uma bola de neve de problemas e ressentimentos - tão diferente de 1998 e do planejado???

Será que eram realmente felizes ou pensavam que eram felizes? Pois a Alice mais jovem, nos seus relatos, resgatando o início do relacionamento, só vê qualidades no Nick (não é isso que acontece quando estamos apaixonadas? Os defeitos nunca aparecem.) A jovem Alice é muito mais empática com os problemas de Nick. Mas quando ela se descobre quase quarentona, Só pensa nos defeitos do Nick velho. Então o que aconteceu? Em uma passagem, o personal trainer de Alice lembra que uma vez ela disse que seu casamento desmoronou em função do sono (ou da falta dele). Essa ideia é explorada ainda mais, tanto para o bem quanto para o mal, em suas lembranças de Nick. Ela se lembra dele deixando-a na cama quando uma vez quis fazer o bebê para de chorar a qualquer custo. Ela chegou pro marido e falou "Eu pensei em fazê-lo calar, eu quase machuquei o bebê." . Ela estava delirantemente e cansada como uma nova mãe. Ela é tocada pela lembrança de que ele cuidou dos dois filhos e não foi trabalhar naquele dia. Mas ela também lembra de muito mais dias em que fica em casa, correndo feito louca e sozinha com as kids, enquanto ele está fora no trabalho. Ela é solitária e está cansada. Definitivamente não é bom a longo prazo. Aqueles anos de bebê chorando e noites sem dormir cobram seu preço. É impossível que uma mulher se sinta presente e feliz quando está dormindo muito pouco. Assim, emoções e comunicações se confundem e são mal interpretadas ao longo dos dias. E quando a fadiga é associada à solidão no casamento a mistura quase sempre é explosiva. Alguém consegue se ver nesse cenário? Eu sim.

E o pânico de não se lembrar dos filhos?

Grande parte do problema da memória gira em torno de sua amiga e vizinha, Gina, que era tão importante para ela, mas cujo nome todo mundo tem receio de citar. E isso faz com que Alice fique mais perdida ainda, pois não se lembra da amiga, só do nome.

Talvez Gina tenha sido o problema maior, mais do que o cansaço. Em sua solidão, Alice começou um vínculo com Gina. Ela relata a primeira impressão que teve da vizinha foi negativa, não gostou da atitude dela, mas como viu que ela também era solitária, olhou para Gina em busca de liderança. Ela deixou Gina tomar conta e dirigir sua vida e até moldá-la. Sem Gina, acho que Alice teria sido obrigada a continuar buscando Nick para conversar e dar apoio emocional e para compartilhar com ele as pequenas dores do seu coração à medida que crescia em seu papel de mãe madura. Com Gina (que até poderia ter inveja de Alice e Nick), Alice procurou a companhia da vizinha (e seus champanhes) e parou de olhar para o marido. Alice parece muito sensível quando é jovem. Nick a acusou de confundir seu relacionamento com Gina e Mike, especificamente de ver nele as mesmas falhas que Gina via em Mike. E começa mais um ressentimentos em ambos.



Pouco a pouco vai ouvindo as versões dos familiares e amigos sobre quem ela é, como e o que faz da vida e não gosta nada do que escuta. Não acredita que se tornou "esse" tipo de pessoa (que não vou falar pra não dar spoilers).

Antes de sua memória voltar, Alice pede a Nick para contar quais são as lembranças mais felizes dos últimos dez anos. Ele quase não encontra um... Fala do nascimento de seus filhos (e, na verdade, foram as horas após o nascimento e não os próprios nascimentos (que foram sofridos e quase traumáticos) que ele se lembra com carinho). Ele tem muitas lembranças tristes, no entanto. Mas a jovem Alice (vivendo no corpo da velha Alice e confusa com tudo) se apega às coisas mais pequenas e felizes. Ela tem uma apreciação por essas pequenas felicidades. Mais do que isso, ela está disposta a investir neles e reconstruir a vida em conjunto. Já Nick não tem tanta confiança nisso.

No final Alice começa a se lembrar e tem os dois lados da história, o que ela vai fazer com isso e como todos os outros personagens reagirão?
Essa história me fez pensar sobre o poder das memórias... 

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Eu adorei e já quero ler os outros livros da escritora. Sabia que ela também escreve pra crianças? Só não foi traduzido ainda pro português. 

E já falamos de outro livro dela, o Pequenas Grandes Mentiras, AQUI.

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